Jornais. Manchetes. (des)informação e formação inativa. Na mesma madrugada toda a informação é compilada e está pronta para entreter os ávidos pelos acontecimentos:
“GRUPO ATACA COLETIVA DE IMPRENSA DE ARTISTA POLÊMICO / POLÍCIA INICIA INVESTIGAÇÕES SOBRE A MORTE DO ARTISTA / QUEM ASSASSINOU O ARTISTA DE VANGUARDA? / ARTE-ATIVISMO OU ARTE-TERRORISMO? VÍDEO GRAVADO PELO GRUPO SE ESPALHA PELAS REDES DE INFORMAÇÃO / blablablablabla...”
O rosto enorme e enrugado e branco do artista aparece em terminais nas salas, nas praças, nas calçadas, nos dispositivos portáteis de informação, nos ônibus, nos painéis publicitários, nos trens, nos carros, nas boates. Seu olhar cinzento apavorado fixado de forma vacilante no olho-câmera do espectador, como se prestes a realizar uma grande descoberta, ou como se vislumbrado algo que nunca desejaria. Os olhos variando milimetricamente o seu foco ao ritmo de nanossegundos. Num estalo mudo, os olhos perdem qualquer demonstração de vontade. O maxilar começa a esboçar um movimento de abertura para baixo. O sangue voando em slow-motion adquire formas alienígenas e tribais. A caixa craniana segue aumentado sua cirunferência, inchando, como outra existência em gestação na imagem do artista. As primeiras fissuras começam a surgir na pele, desde o alto do crânio, até a base da testa e atrás das têmporas, desenhando lentamenta uma cruz, milímetro a milímetro. Como um botão de rosa a desabrochar, as pontas das pétalas de sangue tomam seu primeiro fôlego, ainda pequenas. O sangue a desabrochar, a cabeça-botão a tornar-se flor violenta. O cálice-ósseo em constante e progressiva abertura dá espaço ao desabrochar de novas e maiores pétalas, mais altas, com vermelhos em gradação do mais denso ao mais aquoso. As feições do artista vão se perdendo em meio à beleza grotesca da flor – quanto mais flor se faz, menos lembra o artista. O cálice se abre completamente, as pétalas sangrentas se curvam, formando parábolas que dão espaço ao que realmente importa. O cerebro do artista de desaloja, se descondensa, se divide e sobe, formando pólipos de pólen nervoso. A poética do artista se manifesta pela polinização de sua massa cinzenta. Já não há mais artista, e o que se pode ver é a bela flor de sua morte.
Apresentador #02: “E vocês acabaram de assistir na íntegra ao vídeo gravado e deixado pelos arte-terroristas no local do atentado contra o artista da Vanguarda Tediosa Pela Morte do Prazer. Teve sua execução gravada ontem, durante coletiva de imprensa que era considerada um grande marco em sua carreira. Seus executores, expoentes da anti-anti-arte-sabotagem, espalharam pelo local centenas de panfletos que resenhavam a ação contra o artista. Nós trazemos o conteúdo do documento a vocês em primeira mão e sem cortes:
O grupo de arte-terrorismo e anti-anti-arte-sabotagem esclarece e explica a ação acerca do famigerado artista da VTPMP.
Acreditamos que existe potencial dentro da poética do já mencionado artista, uma certa sede de libertação violenta dentro das vidas metropolitanas em seus anexos de frustrações. Porém, tal sede de libertação privada nada é quando se torna exclusividade. A sede de um exclui a sede de outros. Logo, nossa ação é uma ação contra E a favor do infeliz que se realiza pela morte. A favor – já que usa e propaga a poética do artista da VTPMP, bem como suas práticas e técnicas e algumas de suas intenções, conferindo fama a seu nome. Contra – pois reconhece que para multiplicar o potencial de tal poética é necessária a morte do dito-cujo, além de plagiar descaradamente suas intenções artísticas e tirar a sua poética de seu controle privado e autoral.
O símbolo da flor desabrochando carrega muitas mensagens, e nos agradou desde o início. Com isso, pretendemos incitar a um questionamento sobre valores pregados aos conceitos de morte e violência. Nós matamos um artista para realizar uma peça de arte. E mataríamos muitos mais se assim fosse preciso. O artista se mata pra viver fora de si. Portanto, o fim do uso de nós nas artes nos daria mais vida, mais fôlego, mais espaço para as manifestações livres e vivas. Se o artista não morrer como imagem, certamente morrerá como corpo, antes mesmo até de seu falecimento físico – sua arte o mata antes que ele possa pensar nisso.
Sendo assim, as únicas formas de arte que hoje existem são a arte de auto-mutilação, a arte de inter-mutilação e a arte daquilo que é morto. A arte de auto-mutilação é aquela que usa como matéria prima as frustrações do artista, e suas tempestades mentais – é uma externalização de suas mágoas com a intenção inconsciente de que alguém testemunhe sua dor e desenvolva alguma identificação com tal dor. Já a arte de inter-mutilação utiliza-se da forma como o artista sente as frustrações dos outros como matéria-prima – é uma internalização das mágoas que faz germinar uma compaixão crítica pessimista, e que dessa forma se coloca como uma troca de mutilações entre o artista seu ambiente social de exploração. A arte daquilo que é morto é a arte dos materiais, que se expressa com formas inconscientes de idealismo – é uma idealização pessoal implantada, de matérias estáticas e tentativas intermináveis de causar algum movimento com limites bem estabelecidos.
Não desejamos propagar ou perpetuar tal situação, e por isso buscamos algo que tivesse o potencial da ruptura. O monopólio da violência é a única barreira que resta à nossa frente. O monopólio da violência nos coage à prática de violências de uns contra os outros. Nos compele à realização de atos contra bodes expiatórios. Nos isola, nos fragmenta e separa. O monopólio da violência espalha a violência, a tira a solidez dos atos e descondensa a violência, esconde o alvo e acaba com a pontaria. Vimos a democratização da violência no artista da VTPMP, mas uma democratização tola – uma democratização como produto. Acreditamos que a democratização verdadeira da violência é possível e necessária. A democratização da violência a irá direcionar contra o que nos violenta dia após dia e as violências serão violentadas.
Para que tal isso aconteça é preciso que a arte esteja livre para fluir, e a única peça que impede esse fluxo livre é o artista. O artista é apenas o começo da arte, e não seu fim. Quando ele se torna fim, a arte não amadurece, e as floradas murcham antes de desabrochar. O artista deve morrer. A morte do artista como desabrochar da arte. O desabrochar da arte como polinização das idéias.
Para vocês que estão nos acompanhando agora, este foi o manifesto do grupo autor do ataque contra o artista da VTPMP. Continue conosco enquando vamos a nossos comerciais.”
Publicidade: “Breve, em versão digital e com extras e comentários, o vídeo original em vários ângulos do atentado contra o artista da VTPMP. Lançamento exclusivo! Não perca--”
*clic*
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Chuva grossa temperatura em 18°C & previsão de temporal para todo o resto da madrugada. Alguns serviçais da APSP (Agência Privada de Segurança Pública) montam guarda em frente à enorme silhueta escurecida do hotel, suas linhas arquitetônicas em verticalização vertiginosa, progresso sempre acima de tudo, um cinza que se funde com o do céu.
Traiçoeiras sombras da metrópole tomam variadas formas, se aglomeram – uma formação pseudomilitar do caos em variadas cores, tudo em todos, em coreografias não ensaiadas agressivas aos olhos, todos vestindo máscaras anti-gás: Prostitutas punks seminuas, moicanos, não-depiladas com pelos tingidos e argolas pelos corpos; Transsexuais cibernéticas com aparatos orgásmicos eletrônicos, vestimentas fetichistas, corpos quase sintéticos; DJs vestindo seus sistemas-de-som, carregando samplers portáteis, sons pornográficos, dadaísmo musical sexual subliminar e som de maquinaria pesada.
Antes que os agentes privados possam esboçar qualquer reação, drogas sintéticas em aerosol – a mais recente inovação no campo dos entorpecentes – carregam o ar de sensações: ecstasy em spray, anfetaminas em inaladores, substâncias lisérgicas em grandes cilindros pressurizados. A imersão na supra-realidade entorpecida permite a aproximação do aglomerado, sob denso som industrial – motores rugindo e regendo o som de vozes orgiásticas e digitalizadas em ritmos pesados repetitivos penetrantes. Os ex-agentes, agora invadidos e penetrados por um enorme leque de desejos desconhecidos, são subjugados pelos ritmos e sensações: peles umidecidas criam seu próprio relevo em uma nova vegetação de pelos eriçados, membros eretos e contrações involuntários da uma grande variedade de músculos. Mãos querem tocar, sentir texturas, testar tecidos. Algumas prostitutas lhes removem das fardas e lhes dão um banho de lubrificante. Corpos se esfregam... os agentes deslizam suas mãos por variadas cores, pele suave de seios com mamilos cobertos, ventres com espartilhos nus ao centro, pescoços realçados por luz negra, dedos envolvidos pelo calor de orifícios úmidos. Mãos tatuadas delicadas vestindo socos-ingleses cortam o ar e atingem em cheio o rosto e o corpo de um dos agentes, que vai ao chão. Chute de calcanhar com salto-alto no ventre derruba o outro. As musas punks usam os agentes como montaria. Os açoitam e domam enquanto uma lâmina vibratória é ligada, trilhando os pescoços dos porcos quase que em câmera-lenta e fazendo seu sangue cancerígeno escorrer e borrar em contato com a água da chuva.
Os seres se movem em sua graça agressiva de animais urbanos, infectando a esterilidade dos espaços-feitos-mercadoria, pichando e grafitando paredes, chão, teto e mobiliário com slogans insurgentes, atingindo finalmente o salão de festas, onde há poucos instantes terminava a coletiva de imprensa com o artista da VTPMP: microfones em punho, tripés armados, transmissões viajando pela fibra ótica – ao vivo e em cores, tudo no mesmo lugar mas pronto pra ser empacotado e ir.
O artista da VTPMP nota a presença daquilo que seus olhos consideram uma concorrência inaceitável, uma ameaça a seu domínio midiático, um ruído em todos os sentidos e meios de expressão. A presença da pequena turba é um distúrbio semiótico inevitável:
artista da VTPMP: “Turminhas de rebeldes pseudo-vanguardistas nostálgicos por uma realidade inacessível a suas mentes sempre aparecem em minhas festas. É claro que EU me encarrego de enxotá-los com muita classe, lhes preparando uma bandeja com tudo o que tem do bom e do melhor em matéria de comes e bebes. Esses pedintes sempre aceitam quietinhos. A abundância de minha arte é irrecusável, meus caros.”
Jornaleiros: “HaHhahAhA!”
Mas a presença destoante no salão emudece as gargalhadas rapidamente. Uma das bem-equipadas transsexuais toma frente, uma de suas correntes serpenteando no ar, atinge em cheio a façe direita do artista da VTPMP, que ganha um belo e sangrento sorriso vermelho de extensão até quase sua orelha direita.
Transsexual acorrentadora: “Estamos aqui pra pegar TUDO. Mas não vamos embora satisfeitos com apenas isso. Não somos artistas e nem o pretendemos. Muito pelo contrário: cada um de nós é célula de um corpo artístico muito maior, não-individual, sem identidade egocêntrica. O artista da VTPMP não passa de uma semente de onde deve desabrochar algo maior. Nosso prazer começa em seu sangue para não mais terminar.”
A música que toca em altos brados torna a apresentação da anfitriã quase ininteligível. Logo todos envolvem as frágeis células da imprensa como anticorpos da metrópole, misturam a todos, a massa de corpos coesa, orgânica, ávida, faminta. Um estupro dominador coletivo ao-vivo simbolizando a infecção inesperada em um sistema de assepsia. A bactéria hospitalar social. Uma fagocitose em massa dos membros da imprensa, envolvidos por corpos, ácido úrico, digeridos lentamente pelo organismo anti-social, acorrentados, amarrados. Berram seus pavores parecendo quase prazerosos. As prostitutas punks riem como hienas histéricas inebriando a todos com sua sensualidade suja. O indesejável desejado – trabalhadores midiáticos senvindo de atores em frente a suas ferramentas, penetrados por membros plásticos lubrificados com cuspe, vestidos por garotas que estampam seus rostos com sorrisos vingativos e cruéis. Apenas alguns estupros, se comparados a todos os outros que eles mesmos perpetraram. A mídia – sistema-de-estupro teledirigido – provando um pouco de suas próprias práticas pela retro-via.
Os índices de audiência vão às nuvens-de-chumbo. Os editores choram de alegria o sangue derramado via-anal pelos bravos soldadinhos inocentes da mídia (tudo pelo maior furo de reportagem de todos os tempos de ontem, que será superado pelo de amanhã). Uma das prostitutas destrói uma das câmeras disposta em um tripé, pega o tripé e o reutiliza em sua própria câmera de captação em alta velocidade. Posiciona rapidamente o equipamento no centro da sala enquanto o artista é acorrentado a uma cadeira diretamente no centro do campo de visão da lente. Parece bem menos real no display. Ela ri de seu aspecto ridículo e coloca a câmera para gravar. Sua colega tira da meia uma pequena esfera cinzenta de aproximadamente 23 mm, adornada por muitos espetos – algo parecido com um ouriço high-tech. Puxa com violência o maxilar do artista da VTPMP, abrindo sua boca, e espetando com força a esfera em seu palato – o artista emite um som abafado – o rosto da garota é adornado com um jovial sorriso de satisfação enquanto envolve o rosto do artista da VTPMP com um grosso cinto de couro e o trava, movendo-se logo depois para longe.
Enquanto se confundem linhas de dunas orgânicas dispostas em tons do creme ao café e os trabalhadores da mídia têm a experiência de suas vidas, um estalo alto, agudo e dominante é emitido do artista da VTPMP. Arcos vermelhos a delinear os espaços vazios, para o alto, para os lados, todas as direções. Sua última obra de arte feita com sangue proveniente de atos violentos – abstrata, temporária, adornando alvas paredes de um salão de eventos.
A câmera de captação em alta velocidade anuncia o fim da memória com um bipe. O salão se esvazia e as sombras se desfazem. A ação não durou mais que alguns milhares de microssegundos. Quando os reforços da APSP chegam, encontram nada além de uma câmera em um tripé e panfletos, cobrindo completamente o chão & os corpos exaustos, contendo release sobre a intervenção. (O magnata da mídia queria aproveitar cada momento das câmeras ligadas: “se vocês chegarem antes do desfecho eu faço questão de cortar as cabeças de cada um de vocês!!!”)
A câmera de captação em alta velocidade anuncia o fim da memória com um bipe. Comerciais. A audiência foi alta & amanhã só vão lembrar quando aparecer nos jornais.
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É tarde parcialmente nublada com pancadas de chuva e previsão de temporal para mais tarde. A matilha de lobos domesticados arfando, ansiosa para transbordar páginas, entupir ondas de rádio e estufar páginas de TVs e computadores com mais um pouco de publicidade sobre mercadoria cultural. O artista da vanguarda, atrasado. (é claaaro...) Ninguém supreso. Tudo esperado. É artístico se atrasar. É vanguardista não respeitar horários numa sociedade de tempo contabilizado em microsegundos de produção incessante incessante-incessanteincessante.
Após muitos milhares de microssegundos de espera & alguns automóveis a mais para fora da fábrica & algumas crianças a mais mortas na áfrica (como se alguém ligasse. HA. HA. HA.) & alguns Kms a menos de florestas no globinho azul-virando-preto&cinza, aparece! Aparece! E COMO! Alí está ele... o artista de vanguarda! Mas não é qualquer vanguarda não, meirhmão! É da Vanguarda Tediosa Pela Morte Do Prazer (a partir de agora chamada pela sigla VTPMP). E claro que, sendo não de UMA vanguarda, mas DA vanguarda, aparece em grande estilo, trajando vanguardismo da cabeça aos pés. Uma touca de couro de feto abortado adorna sua caixa craniana, escondendo a calvice (dando toque mais jovial, um ar casual pra esse senhor modernoso); A jaqueta de pneu queimado emana odores a metros de distância (um raio de aproximadamente 5m, medido e conferido); calças de latex reciclado de camisinhas fora da validade para levantar o bumbum flácido (adooooro!); por fim, réplicas de botinhas de exército (acho chic & glamouroso).
Os flashes da matilha disparam tudo se ilumina o artista quase esboça sorriso mas consegue manter a postura fingindo odiar tudo isso mas ama muito tudo isso. (é claaaro... é claaaaaaro!) Sem demorar mais que 1 microsegundo, muitos dos lobinhos domesticados já levantam suas mãos, fingem carinhas curiosas, escondem seu enorme ego auto-indulgente de soldados midiáticos, simulam sua verdadeira desconhecida ignorância.
O assessor do artista, Jackson Lamb'bola, aponta um. E a pergunta dispara no ar:
Jornaleiro #02: “Senhor artista, o senhor--”
artista da VTPMP: “Desejo ser chamado de Alteza, hoje. Por favor.”
Jornaleiro #02: “Hã... Hum. Vossa Alteza poderia iniciar nos dando alguns detalhes sobre vossa obra para as massas ou até pra rico pomposo que finge entender de arte mas na verdade é só pose?”
artista da VTPMP: “Essa pergunta enjoativa não poderia vir em melhor hora. Na verdade todos já deveriam saber que a vanguarda obsoleta da pós-modernidade é na verdade uma inveja sobre o que foi feito e isso é um desejo supra-ideológico de superação que leva a novas frustrações. Esse frustracionismo ontologicamente instituido é o gancho cotidiano de morte sobre o ideal de super-homem digerido, refluxado, ulcerando o estômago da filosofia. A contemporaneidade da morte neste quadro de redenção do indivíduo metropolitano é evidente. Quer dizer... Vamo lá: Filhinho morre com bala perdida e zap! Tchau nenêm! Melhor pra ti que não passou fome, não entrou pro tráfico muito menos pra polícia, nem teve que trocar boquete por crack. Enfim. Essa é minha poética sem ética. Pura estética – nada estática – estica até arrebentar e vazar sangue.”
Todos: “Uau!”
O assessor do artista continua a apontar caras empalidecidas pelos flashs e curiosidade dissimulada:
Jornaleiro #05: “De onde veio a idéia de usar sangue real, proveniente de acontecimentos violentos, em suas obras? Como é na prática? Como se dá este 'fazer artístico'?”
artista da VTPMP: “Eu simplesmente sempre fui muito atento à violência urbana. A violência é uma das poucas coisas constantes em uma sociedade guiada pelo volúvel, onde tudo muda constantemente conforme as vontades às quais somos induzidos. Disseram que a colonização, o imperialismo e a globalização destruíram a cultura dos países de 3º mundo, grupo no qual o nosso está inserido, mas eu acho isso um pessimismo danado. É coisa de comunista sonhador. É só você olhar ao redor e consegue ver que uma nova cultura foi criada. A colonização, o imperialismo e a globalização foram ótimos para os artistas realmente interessados a ir além. Eu vi que com a fim da cultura popular – tão cafona e velha – surgiu uma nova cultura: a cultura da violência. Essa é a nossa nova cultura. Eu vi um nicho inexplorado dentro disso. Então eu pensei: “Porra! O sangue, os tiroteios, as execuções, os batalhões de polícia, as mortes, o tráfico, a fome... isso tudo é um puta capital cultural, gentxi!”. O nosso novo capital cultural a ser explorado está no sangue que jorra de nosso cotidiano. Então eu comecei a pensar em formas de transformar isso em arte (e vender bem caro, claro, pra milionários de países desenvolvidos).
A primeira coisa que eu fiz foi comprar um rádio-amador e arrumar um colete a prova de balas. Esse rádio atualmente fica 100% do tempo sintonizado em freqüência policial. Quando sei de uma ocorrência, pego meu colete e vou ao local. Munido de uma esponja, tento encontrar algum azarado que tenha sido baleado, esfaqueado ou atropelado, e sugo com a esponja todo sangue que porventura o coitado tenha derramado e guardo em um pote com anti-coagulante. Pedaços de pele, cabelo, ou matéria orgânica que estiverem disponíveis na cena também são bem-vindos. Então eu pego todo esse material e componho retratos – muitas vezes de amigos meus – com ele, e deixo coagular.”
Um dos soldadinhos-de-chumbo midiáticos levanta a mão com certo receio:
Jornaleiro #03: “Já tentaram analisar essa relação de retratos de amigos seus com o sangue. Qual é a idéia, afinal, que norteia esse conceito?”
artista da VTPMP: “Isso quer dizer que hoje o sangue é meu melhor amigo, ok? Tá legal? É. Isso! Quanto mais sangue eu vejo, e eu pego e eu cheiro, mais arte minha aparece e mais dinheiro na minha conta vai surgir, meu bem.”
O assessor faz sinal de que a última pergunta se aproxima. Todos os predadores da (des)informação fazem grande alvoroço. Grunhem, uivam, se levantam, correm atrás de seus próprios rabos. Dentre todos os exibicionismos, o assessor escolhe o último a fazer sua pergunta:
Jornaleiro #23: “Especula-se sobre um novo tipo de arte que Vossa Alteza esteja preparando. Algo nunca antes tentado. Dizem que irá se chamar 'arte genética'. Pode dar detalhes sobre isso?”
artista da VTPMP: “Ah! Afinal uma
pergunta decente! Depois do domínio desenvolvido no campo da
engenharia genética, eu percebi que esse era outro campo que
poderia ser utilizado artisticamente. Mas com o desenvolvimento de
leis rígidas nos países desenvolvidos – onde eu moro
a maior parte do tempo – sobre o tema, isso ficou só como
idéia por todo esse tempo. Até que recebi apoio de meu
atual mecenas, acionista de uma das maiores empresas de engenharia
genética atualmente – que eu não mencionarei o nome
por questões de segurança.
Mas vamos ao que
interessa... O conceito de escultura genética é
simples: por meio da reprodução controlada de células
tronco, eu vou 'colando' células de variadas funções,
dando à obra o formato que eu desejo. Toda obra possui um
sistema circulatório rudimentar, uma estrutura óssea
básica e está relativamente 'viva'. Mas isso é
apenas para incitar a dúvida de sobre 'o quê está
realmente REALMENTE vivo'. Os corpos são máquinas como
quaisquer outras. Basta colocar o combustível certo que elas
funcionam.
Também acompanha a obra, na base de seu pedestal, um sistema de suporte de vida rudimentar, por onde é possível alimentar a escultura com injeções intravenosas de proteínas e onde seu sangue e fluídos são oxigenados e renovados. Tudo isso, é claro, foi feito aqui em nosso país, por causa daquelas leis horríveis que censuram nossa veia criativa vanguardista lá fora, nos países ditos 'desenvolvidos'. São uns conservadores de merda, isso sim! Essas obras de arte serão máquinas orgânicas que suam, mijam, cagam e excretam fluídos diversos. Com essas características, acho perfeito para colocar na sua sala de estar e exibir para seus visitantes. Qual ricaço que não entende bosta nenhuma não vai querer sua sala fedendo por causa disso?
E é claro! Pra demonstrar o quão comprometido eu estou com esse projeto, as células-tronco utilizadas foram doadas por mim mesmo. Isso quer dizer que ninguém vai conseguir falsificar, pois todas as obras possuem o meu DNA. Não que exista uma obra 'original', pois o original é meu próprio código genético. Logo, isso é a reprodutibilidade técnica, da qual Walter Benjamin falava, levada ao extremo. Mas é o sonho de todo artista que preza por direitos autorais. Uma obra reprodutível que não pode ser falsificada."
A coletiva de imprensa se encerra e todos os lobinhos da matilha midiática pintam seus rostos em sincronia com uma espressão de satisfação. O artista se mantém em sua expressão genérica. Lá fora, as primeiras trovoadas se fazem ouvir. A previsão estava correta, afinal.
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(...)
quero cada muda plantada
frutificando em canções sem fim.
ali e aí?
minhas estrelas fugiram
pra qualquer lugar no mundo
um buraco bem fundo
onde eu não posso achar.
mas no mundo esburacado qualquer beleza é um achado.
há pesares, apesar de tudo:
há machões com seus machados
nos machucam e os comuns não se chocam
mesmo assim, a alegria não mingua
escute Charles Mingus
entende pela música...
aquele elo livre que lava a alma
no compasso da compaixão
apaixonadamente
mente quem não sente.
queria poder morar
no teu mundo
meu mundo
de poesia
orgia
orgasmos
espasmos
de palavras.
pode morar e namorar
ir a fundo em seu mundo
em desejos, de poemas eu abundo
e em toda poesia há magia
palavras livres sempre deixaram alguns pasmos
são orgias da linguagem
são orgasmos de mensagem
queria, por hora
viver de poesia:
comer devaneios ao pesto
beber cuba-palavras
achar um colo quente entre metáforas.
queria viver de caçar estrelas
voando com borboletas
a cantar com tico-ticos.
mas.
quando foi que caí da nuvem do sonho distante
dei de frente com o chão
(duro feito a realidade!)
e acordei:
preciso trabalhar.
de fato, trabalhamos.
mas também bailamos
e te enganaste, pude ver:
a magia em sua poesia ainda age - e de forma ágil.
muito me agrada
prazer infinito
'ouvir' da voz sua
que minhas palavras remendadas agradam:
um novo prazer infinito
e infindável.
e no fim das contas:
me concede
me concebe
essa dança?
muito mais bonito
é ouvir a voz nua
grave e cheia como lua
vozes que vazam
desvendam sem vender
ventos que fazem ceder e conceder
uivam pelos cantos seus encantos
suas palavras já dançam.
queria tododia
poesia assim.
deliciosa
sincera
pura e menina.
isso é poesia que ensina
voz que nunca desafina
a menina da poesia
diz que quer pra todo dia
mas não diz com apatia
lê meus versos e os desfia - desafia
eu também queria assim
um belo poema sem fim
mais pra você do que pra mim... generoso
metade palhaço, metade escárnio.
metade erótico, metade pornográfico.
metade poesia, metade rima.
metade prosa, metade dissestação.
meu-eu inteiro tem mais meios que pedaços
e minhas duas faces da moeda...
ah, elas ficam do mesmo lado.
sou palhaço e escárnio-em-osso
o erotismo da erosão arranca raízes.
a minha pornografia é à caneta esferográfica:
minha escrita fotográfica.
e a prosa não tem prazo - se torna só prazer
toda a dissertação em uma única estação:
primavera.
... os dedos que escreveram ficaram com
gosto de "pegue mais um pedaço".
(poema-por-scrap, feito em dupla com lua. parte em meu scrapbook, parte no dela. incompleto, pois parte dele já havia sido deletada.)
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E se tudo fosse brisa...
cada movimento casasse, tivesse seu próprio cabimento, caísse gentilmente, pairando aos ventos do outro e próximo.
E se tudo fosse brasa...
cada toque aquecesse, ateasse sua própria ardência, aderisse à pele, provando as bocas em desejo arfante.
Assim um pouco de liberdade é degustada a olhos fechados, passada por contato osmótico das peles úmidas, membros se movendo como movimentos -- instintivos e convergentes, sem lamentos -- e a paixão torrencial que não cabe no tórax causa turbulências visíveis, que mesmo assim não importam para as bocas que salivam para saborear o sumo de sua transcendência criminosa.
E se o tantra instintivo é inserido a ritmos lentos na massa de corpos, a louvável peça instransigente do tesão é transferida de gesto em gesto, na energia que nunca é gasta. Em toda a graça dos gestos que giram em torno na liberdade, as gotas de luxúria escorrem e fazem os desejos correrem à ocasião de sua realização.
Ao compasso desta sinfonia cacofônica de sensações, mais um passo é dado rumo à libertação.
Um crime notável que não será flagrado.
Um feito louvável que não será notado.
O jazz é uma grande lenda inacabada, e eu espero que não termine de ser contada nunca. Esta lenda, contada e cantada por muitas bocas, é um dos grandes encantos do século XX. E tais encantos foram sendo lançados sucessivamente por muitos feiticeiros.
Diz uma das lendas da lenda grande que em determinada época havia discordância sobre o que era jazz e o que não era (discussão antiga). E todas as noites, jovens e velhos das aldeias jazzísticas espalhadas pela américa largavam a discussão de lado e soltavam seus encantos. Em grandes grupos, em médios grupos; até em trios – todos faziam sua mágica.
Mas os jovens insatisfeitos dessa época controversa foram além. Ousados, criaram suas próprias receitas, seus próprios encantos e sua própria alquimia sonora. A discussão se acirrava: seria um novo tipo de mágica, totalmente diferente, que precisaria de um novo mundo para se expandir? Impossível!
Em meio a esta polêmica, aparece de um local aparentemente 'não-jazzístico' o homem que mudaria muita coisa. Rumores diziam que o homem era capaz de tocar todos os tipos de jazz: ritmos conhecidos e blues misteriosos; antigos e novos; nostálgicos e vanguardistas. O homem solava seu baixo – solas de pés levantavam e baixavam – o solo tremia e casas de show vinham abaixo.
Mas, antes de solar seu baixo, este novo feiticeiro pensava em todos os encantos dos outros instrumentos – e pensava alto. Escolhia a dedo novos feiticeiros desconhecidos. Os conhecia a fundo e intensificava sua magia com o desconhecido que soava familiar.
O homem conseguia de fato tocar todos os estilos de jazz. Os velhos o respeitavam. Os jovens o admiravam. Depois de ter tocado todos os estilos, ficou claro o que o homem havia feito: o seu estilo havia sido criado dentro do imaginário dos outros, e era um estilo para todos. Depois disso, o homem nunca mais envelheceu. A cada nota emitida por suas mãos, ficava mais jovem. Seus hinos mudos de liberdade repercutiram até que o destino se encarregou de pregar-lhe uma peça...
Ele não mais precisava tocar para ser escutado, e por isso foi perdendo os movimentos. Morreu por falta de música, e suas notas se encarregam ainda de ecoar.
Diz a lenda que seu nome era Charles
Mingus.
R.Crumb – Singing in the Bathtub (download)
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Indo completamente na contramão da indústria musical, Robert Crumb, junto a seus Cheap Suit Serenaders (Seresteiros de Ternos Baratos, traduzindo), trazem aos ouvidos simplicidade sonora e alegria. A sonoridade rústica do grupo não deixa a desejar em nada. As execuções são magníficas, e em alguns casos dançantes. Uma constante em todo o álbum é a sonoridade do violão slide tocado com maestria e precisão, principalmente em 'Hula Girl', que contém um solo frenético e empolgante, com uma conclusão que nunca passa despercebida.
Os gêneros musicais abordados são variados, mas sempre possuem o denominador comum da simplicidade – da expressão popular. O folk norte-americano tem grande destaque no disco todo. Na faixa 'Suits Crybaby Blues', nossos seresteiros admitem sem constrangimento: “ninguém gosta de nossa música / todos só querem o que é alto...”. E isso pouco importa aos Cheap Suit Serenaders, pois a sensação que o disco passa é a de observar uma antiga foto de amigos. Nessa foto, estão mal-vestidos com seus ternos baratos, mas muito felizes tocando melodias divertidas. O disco em si parece dizer: “olhe como gostamos de tocar, mesmo com as pessoas achando nosso ruído uma baita coisa de caipiras”.
Mas as faixas vão se desenrolando, e somos pegos de jeito pela sentimentalidade de algumas músicas, a incidentalidade de algumas letras, as sonoridades quase que improvisadas. A serra musical (instrumento feito simplesmente com um serrote), junto à ótima letra de 'Home' ([...] when crickets call / my heart is forever yearning / once more to be returning home [...]) atinge em cheio seus propósitos, em uma execução afínadíssima, passando emoções de nostalgia.
Mesmo com instrumentos rudimentares – herança das jug bands – não importa se os Cheap Suit Serenaders estão tocando um standard de jazz, uma canção de bluegrass, ou um antigo folk: é impressionante a qualidade do som de 'Singing in the Bathtub'.
R.Crumb – Singing in the Bathtub (download)
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Robert Crumb possui o que existe de mais raro no mundo dos quadrinhos. É político sem politicagem. Satírico sem ser cínico. É popular, mas nunca abrindo concessões ao pop. O senso de humor de Crumb sempre se apoiou nas nuances, na apurada capacidade de observação do autor, na sua capacidade de inundar suas páginas com seu imáginário vívido e o cotidiano controverso dos EUA.
'Blues' atira aos olhos do leitor imagens cruas em traços refinados. O expressivo traço de Crumb dá suporte às histórias do delta blues, nos apresentando Charley Patton, com todos os seus problemas, as encruzilhadas e superstições do blues, e a vida desregrada de seus músicos. 'Blues' não fala só de música, mas sim de histórias esquecidas – soterradas pela indústria cultural e a mídia eletrônica.
Crumb pode parecer amargurado com o mundo moderno em histórias como em 'As Velhas Canções são as Melhores' o em 'Onde foi parar toda aquela Magnífica Música de Nossos Avós?', mas seu temperamento rabugento na verdade exalta a realidade do folk, da música quase incidental. É o elogio à experiência musical não-mediada.
Em 'Blues', Robert Crumb transpõe o trabalho de historiador para os quadrinhos. Em uma época na qual o blues morre lentamente na própria terra de seu nascimento, na qual a última palavra em música negra é funk elétrico tocado a altos volumes e da qual obtemos apenas arremedos descordenados do passado, 'Blues' é uma obra muito bem-vinda.
CDisplay – programa para leitura de quadrinhos no pc
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Quando um burocrata pessimista escutar a expressão 'Guerrilha Gastronômica' provavelmente irá dizer: “Mas que coisa elitista... Essa turminha da 'anarquia-pós-esquerda' não tem mais o que fazer!” E nós só temos a lamentar o pessimismo dos lamentos comportados dos politiqueiros.
A postura de insurgência é necessária para nos tirar do 'bom-mocismo' partidário no qual nos encontramos. Tal postura pede por uma radicalização generosa em todos os espaços do cotidiano. Não declaramos nossas táticas como as únicas válidas, mas ridicularizamos aqueles que monopolizam os 'espaços de fazer política' como seus. Mais que isso: devemos ridicularizar a própria idéia de espaços 'adequados' para o fazer político, pois existe política além dos partidos, existe vida além do estado e existe cotidiano além do mercado. Importante tudo isso pra diferenciar politicagem de cotidiano político.
Dessa forma, o conceito de Guerrilha Gastronômica não é norteado por nenhuma 'alta-culinária' ou ingredientes milaborantes. A proposta central da GG é “mexer com sensações adormecidas” – palavras estas vindas do próprio entendimento de um de seus idealizadores. As sensações anestesiadas pelo mercado se tornam instrumentos poderosos quando recontextualizadas para quebrar todo tipo de mediação. Os sentidos são brechas de onde pode surgir a consciência da miséria vivida. Por conseqüência da consciência, pode surgir a luta contra tal miséria.
O manifesto da Guerrilha Gastronômica é breve simplesmente por esta ser apenas uma idéia, e não um ideal. Nós não idealizamos a subversão. Subvertemos a idelização que existe nos espaços de convivência social, impregnados pelo mercado e pela troca. Assim sendo, a GG é uma idéia colaborativa que deve ser expandida em fractais, nunca se tornando um conceito hermético. A 'receita' (em vários sentidos) que melhor serve à Guerrilha Gastronômica é a que mais se adequar ao momento e às intenções do grupo que a for colocar em prática. Importante ressaltar que a GG é apenas uma das várias formas de intervenção e desobediência civil, e pode ser apoiada por uma variedade de outras ações.
Sendo assim, alguns exemplos simples de práticas que a GG deve encorajar e abordar seriam: freeganismo, yomango, veganismo não-mercadológico, alimentação afrodisíaca, culinária cannábica, cultivo de especiarias, hortas comunitárias, agricultura pública, técnicas de compostagem, conhecimento de sementes e plantas, etc. Tudo isso deve ser abordado de forma participativa, sendo que a GG não dá fórmulas prontas.
Manifesto da Guerrilha Gastronômica
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Amor babaca
Paixão na faca
"Te adoro" na humilhação
imploro por redenção
"Te amo"
coração de pano
cortou meu nome
bordou de fulano
faça a farsa–
–faz que é fácil!
passa a faca–
–não foi façanha...
Acredite:
não boto crédito:
acabou o amor incrível
Ligue amanhã & ligue a manhã–
–até o amanhecer foi tornado artificial.
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