Coletiva de Imprensa com o artista da Vanguarda Tediosa Pela Morte Do Prazer – Parte 2
Chuva grossa temperatura em 18°C & previsão de temporal para todo o resto da madrugada. Alguns serviçais da APSP (Agência Privada de Segurança Pública) montam guarda em frente à enorme silhueta escurecida do hotel, suas linhas arquitetônicas em verticalização vertiginosa, progresso sempre acima de tudo, um cinza que se funde com o do céu.
Traiçoeiras sombras da metrópole tomam variadas formas, se aglomeram – uma formação pseudomilitar do caos em variadas cores, tudo em todos, em coreografias não ensaiadas agressivas aos olhos, todos vestindo máscaras anti-gás: Prostitutas punks seminuas, moicanos, não-depiladas com pelos tingidos e argolas pelos corpos; Transsexuais cibernéticas com aparatos orgásmicos eletrônicos, vestimentas fetichistas, corpos quase sintéticos; DJs vestindo seus sistemas-de-som, carregando samplers portáteis, sons pornográficos, dadaísmo musical sexual subliminar e som de maquinaria pesada.
Antes que os agentes privados possam esboçar qualquer reação, drogas sintéticas em aerosol – a mais recente inovação no campo dos entorpecentes – carregam o ar de sensações: ecstasy em spray, anfetaminas em inaladores, substâncias lisérgicas em grandes cilindros pressurizados. A imersão na supra-realidade entorpecida permite a aproximação do aglomerado, sob denso som industrial – motores rugindo e regendo o som de vozes orgiásticas e digitalizadas em ritmos pesados repetitivos penetrantes. Os ex-agentes, agora invadidos e penetrados por um enorme leque de desejos desconhecidos, são subjugados pelos ritmos e sensações: peles umidecidas criam seu próprio relevo em uma nova vegetação de pelos eriçados, membros eretos e contrações involuntários da uma grande variedade de músculos. Mãos querem tocar, sentir texturas, testar tecidos. Algumas prostitutas lhes removem das fardas e lhes dão um banho de lubrificante. Corpos se esfregam... os agentes deslizam suas mãos por variadas cores, pele suave de seios com mamilos cobertos, ventres com espartilhos nus ao centro, pescoços realçados por luz negra, dedos envolvidos pelo calor de orifícios úmidos. Mãos tatuadas delicadas vestindo socos-ingleses cortam o ar e atingem em cheio o rosto e o corpo de um dos agentes, que vai ao chão. Chute de calcanhar com salto-alto no ventre derruba o outro. As musas punks usam os agentes como montaria. Os açoitam e domam enquanto uma lâmina vibratória é ligada, trilhando os pescoços dos porcos quase que em câmera-lenta e fazendo seu sangue cancerígeno escorrer e borrar em contato com a água da chuva.
Os seres se movem em sua graça agressiva de animais urbanos, infectando a esterilidade dos espaços-feitos-mercadoria, pichando e grafitando paredes, chão, teto e mobiliário com slogans insurgentes, atingindo finalmente o salão de festas, onde há poucos instantes terminava a coletiva de imprensa com o artista da VTPMP: microfones em punho, tripés armados, transmissões viajando pela fibra ótica – ao vivo e em cores, tudo no mesmo lugar mas pronto pra ser empacotado e ir.
O artista da VTPMP nota a presença daquilo que seus olhos consideram uma concorrência inaceitável, uma ameaça a seu domínio midiático, um ruído em todos os sentidos e meios de expressão. A presença da pequena turba é um distúrbio semiótico inevitável:
artista da VTPMP: “Turminhas de rebeldes pseudo-vanguardistas nostálgicos por uma realidade inacessível a suas mentes sempre aparecem em minhas festas. É claro que EU me encarrego de enxotá-los com muita classe, lhes preparando uma bandeja com tudo o que tem do bom e do melhor em matéria de comes e bebes. Esses pedintes sempre aceitam quietinhos. A abundância de minha arte é irrecusável, meus caros.”
Jornaleiros: “HaHhahAhA!”
Mas a presença destoante no salão emudece as gargalhadas rapidamente. Uma das bem-equipadas transsexuais toma frente, uma de suas correntes serpenteando no ar, atinge em cheio a façe direita do artista da VTPMP, que ganha um belo e sangrento sorriso vermelho de extensão até quase sua orelha direita.
Transsexual acorrentadora: “Estamos aqui pra pegar TUDO. Mas não vamos embora satisfeitos com apenas isso. Não somos artistas e nem o pretendemos. Muito pelo contrário: cada um de nós é célula de um corpo artístico muito maior, não-individual, sem identidade egocêntrica. O artista da VTPMP não passa de uma semente de onde deve desabrochar algo maior. Nosso prazer começa em seu sangue para não mais terminar.”
A música que toca em altos brados torna a apresentação da anfitriã quase ininteligível. Logo todos envolvem as frágeis células da imprensa como anticorpos da metrópole, misturam a todos, a massa de corpos coesa, orgânica, ávida, faminta. Um estupro dominador coletivo ao-vivo simbolizando a infecção inesperada em um sistema de assepsia. A bactéria hospitalar social. Uma fagocitose em massa dos membros da imprensa, envolvidos por corpos, ácido úrico, digeridos lentamente pelo organismo anti-social, acorrentados, amarrados. Berram seus pavores parecendo quase prazerosos. As prostitutas punks riem como hienas histéricas inebriando a todos com sua sensualidade suja. O indesejável desejado – trabalhadores midiáticos senvindo de atores em frente a suas ferramentas, penetrados por membros plásticos lubrificados com cuspe, vestidos por garotas que estampam seus rostos com sorrisos vingativos e cruéis. Apenas alguns estupros, se comparados a todos os outros que eles mesmos perpetraram. A mídia – sistema-de-estupro teledirigido – provando um pouco de suas próprias práticas pela retro-via.
Os índices de audiência vão às nuvens-de-chumbo. Os editores choram de alegria o sangue derramado via-anal pelos bravos soldadinhos inocentes da mídia (tudo pelo maior furo de reportagem de todos os tempos de ontem, que será superado pelo de amanhã). Uma das prostitutas destrói uma das câmeras disposta em um tripé, pega o tripé e o reutiliza em sua própria câmera de captação em alta velocidade. Posiciona rapidamente o equipamento no centro da sala enquanto o artista é acorrentado a uma cadeira diretamente no centro do campo de visão da lente. Parece bem menos real no display. Ela ri de seu aspecto ridículo e coloca a câmera para gravar. Sua colega tira da meia uma pequena esfera cinzenta de aproximadamente 23 mm, adornada por muitos espetos – algo parecido com um ouriço high-tech. Puxa com violência o maxilar do artista da VTPMP, abrindo sua boca, e espetando com força a esfera em seu palato – o artista emite um som abafado – o rosto da garota é adornado com um jovial sorriso de satisfação enquanto envolve o rosto do artista da VTPMP com um grosso cinto de couro e o trava, movendo-se logo depois para longe.
Enquanto se confundem linhas de dunas orgânicas dispostas em tons do creme ao café e os trabalhadores da mídia têm a experiência de suas vidas, um estalo alto, agudo e dominante é emitido do artista da VTPMP. Arcos vermelhos a delinear os espaços vazios, para o alto, para os lados, todas as direções. Sua última obra de arte feita com sangue proveniente de atos violentos – abstrata, temporária, adornando alvas paredes de um salão de eventos.
A câmera de captação em alta velocidade anuncia o fim da memória com um bipe. O salão se esvazia e as sombras se desfazem. A ação não durou mais que alguns milhares de microssegundos. Quando os reforços da APSP chegam, encontram nada além de uma câmera em um tripé e panfletos, cobrindo completamente o chão & os corpos exaustos, contendo release sobre a intervenção. (O magnata da mídia queria aproveitar cada momento das câmeras ligadas: “se vocês chegarem antes do desfecho eu faço questão de cortar as cabeças de cada um de vocês!!!”)
A câmera de captação em alta velocidade anuncia o fim da memória com um bipe. Comerciais. A audiência foi alta & amanhã só vão lembrar quando aparecer nos jornais.
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