Coletiva de Imprensa com o artista da Vanguarda Tediosa Pela Morte Do Prazer – Parte 3
Jornais. Manchetes. (des)informação e formação inativa. Na mesma madrugada toda a informação é compilada e está pronta para entreter os ávidos pelos acontecimentos:
“GRUPO ATACA COLETIVA DE IMPRENSA DE ARTISTA POLÊMICO / POLÍCIA INICIA INVESTIGAÇÕES SOBRE A MORTE DO ARTISTA / QUEM ASSASSINOU O ARTISTA DE VANGUARDA? / ARTE-ATIVISMO OU ARTE-TERRORISMO? VÍDEO GRAVADO PELO GRUPO SE ESPALHA PELAS REDES DE INFORMAÇÃO / blablablablabla...”
O rosto enorme e enrugado e branco do artista aparece em terminais nas salas, nas praças, nas calçadas, nos dispositivos portáteis de informação, nos ônibus, nos painéis publicitários, nos trens, nos carros, nas boates. Seu olhar cinzento apavorado fixado de forma vacilante no olho-câmera do espectador, como se prestes a realizar uma grande descoberta, ou como se vislumbrado algo que nunca desejaria. Os olhos variando milimetricamente o seu foco ao ritmo de nanossegundos. Num estalo mudo, os olhos perdem qualquer demonstração de vontade. O maxilar começa a esboçar um movimento de abertura para baixo. O sangue voando em slow-motion adquire formas alienígenas e tribais. A caixa craniana segue aumentado sua cirunferência, inchando, como outra existência em gestação na imagem do artista. As primeiras fissuras começam a surgir na pele, desde o alto do crânio, até a base da testa e atrás das têmporas, desenhando lentamenta uma cruz, milímetro a milímetro. Como um botão de rosa a desabrochar, as pontas das pétalas de sangue tomam seu primeiro fôlego, ainda pequenas. O sangue a desabrochar, a cabeça-botão a tornar-se flor violenta. O cálice-ósseo em constante e progressiva abertura dá espaço ao desabrochar de novas e maiores pétalas, mais altas, com vermelhos em gradação do mais denso ao mais aquoso. As feições do artista vão se perdendo em meio à beleza grotesca da flor – quanto mais flor se faz, menos lembra o artista. O cálice se abre completamente, as pétalas sangrentas se curvam, formando parábolas que dão espaço ao que realmente importa. O cerebro do artista de desaloja, se descondensa, se divide e sobe, formando pólipos de pólen nervoso. A poética do artista se manifesta pela polinização de sua massa cinzenta. Já não há mais artista, e o que se pode ver é a bela flor de sua morte.
Apresentador #02: “E vocês acabaram de assistir na íntegra ao vídeo gravado e deixado pelos arte-terroristas no local do atentado contra o artista da Vanguarda Tediosa Pela Morte do Prazer. Teve sua execução gravada ontem, durante coletiva de imprensa que era considerada um grande marco em sua carreira. Seus executores, expoentes da anti-anti-arte-sabotagem, espalharam pelo local centenas de panfletos que resenhavam a ação contra o artista. Nós trazemos o conteúdo do documento a vocês em primeira mão e sem cortes:
O grupo de arte-terrorismo e anti-anti-arte-sabotagem esclarece e explica a ação acerca do famigerado artista da VTPMP.
Acreditamos que existe potencial dentro da poética do já mencionado artista, uma certa sede de libertação violenta dentro das vidas metropolitanas em seus anexos de frustrações. Porém, tal sede de libertação privada nada é quando se torna exclusividade. A sede de um exclui a sede de outros. Logo, nossa ação é uma ação contra E a favor do infeliz que se realiza pela morte. A favor – já que usa e propaga a poética do artista da VTPMP, bem como suas práticas e técnicas e algumas de suas intenções, conferindo fama a seu nome. Contra – pois reconhece que para multiplicar o potencial de tal poética é necessária a morte do dito-cujo, além de plagiar descaradamente suas intenções artísticas e tirar a sua poética de seu controle privado e autoral.
O símbolo da flor desabrochando carrega muitas mensagens, e nos agradou desde o início. Com isso, pretendemos incitar a um questionamento sobre valores pregados aos conceitos de morte e violência. Nós matamos um artista para realizar uma peça de arte. E mataríamos muitos mais se assim fosse preciso. O artista se mata pra viver fora de si. Portanto, o fim do uso de nós nas artes nos daria mais vida, mais fôlego, mais espaço para as manifestações livres e vivas. Se o artista não morrer como imagem, certamente morrerá como corpo, antes mesmo até de seu falecimento físico – sua arte o mata antes que ele possa pensar nisso.
Sendo assim, as únicas formas de arte que hoje existem são a arte de auto-mutilação, a arte de inter-mutilação e a arte daquilo que é morto. A arte de auto-mutilação é aquela que usa como matéria prima as frustrações do artista, e suas tempestades mentais – é uma externalização de suas mágoas com a intenção inconsciente de que alguém testemunhe sua dor e desenvolva alguma identificação com tal dor. Já a arte de inter-mutilação utiliza-se da forma como o artista sente as frustrações dos outros como matéria-prima – é uma internalização das mágoas que faz germinar uma compaixão crítica pessimista, e que dessa forma se coloca como uma troca de mutilações entre o artista seu ambiente social de exploração. A arte daquilo que é morto é a arte dos materiais, que se expressa com formas inconscientes de idealismo – é uma idealização pessoal implantada, de matérias estáticas e tentativas intermináveis de causar algum movimento com limites bem estabelecidos.
Não desejamos propagar ou perpetuar tal situação, e por isso buscamos algo que tivesse o potencial da ruptura. O monopólio da violência é a única barreira que resta à nossa frente. O monopólio da violência nos coage à prática de violências de uns contra os outros. Nos compele à realização de atos contra bodes expiatórios. Nos isola, nos fragmenta e separa. O monopólio da violência espalha a violência, a tira a solidez dos atos e descondensa a violência, esconde o alvo e acaba com a pontaria. Vimos a democratização da violência no artista da VTPMP, mas uma democratização tola – uma democratização como produto. Acreditamos que a democratização verdadeira da violência é possível e necessária. A democratização da violência a irá direcionar contra o que nos violenta dia após dia e as violências serão violentadas.
Para que tal isso aconteça é preciso que a arte esteja livre para fluir, e a única peça que impede esse fluxo livre é o artista. O artista é apenas o começo da arte, e não seu fim. Quando ele se torna fim, a arte não amadurece, e as floradas murcham antes de desabrochar. O artista deve morrer. A morte do artista como desabrochar da arte. O desabrochar da arte como polinização das idéias.
Para vocês que estão nos acompanhando agora, este foi o manifesto do grupo autor do ataque contra o artista da VTPMP. Continue conosco enquando vamos a nossos comerciais.”
Publicidade: “Breve, em versão digital e com extras e comentários, o vídeo original em vários ângulos do atentado contra o artista da VTPMP. Lançamento exclusivo! Não perca--”
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