Uma lenda do jazz
O jazz é uma grande lenda inacabada, e eu espero que não termine de ser contada nunca. Esta lenda, contada e cantada por muitas bocas, é um dos grandes encantos do século XX. E tais encantos foram sendo lançados sucessivamente por muitos feiticeiros.
Diz uma das lendas da lenda grande que em determinada época havia discordância sobre o que era jazz e o que não era (discussão antiga). E todas as noites, jovens e velhos das aldeias jazzísticas espalhadas pela américa largavam a discussão de lado e soltavam seus encantos. Em grandes grupos, em médios grupos; até em trios – todos faziam sua mágica.
Mas os jovens insatisfeitos dessa época controversa foram além. Ousados, criaram suas próprias receitas, seus próprios encantos e sua própria alquimia sonora. A discussão se acirrava: seria um novo tipo de mágica, totalmente diferente, que precisaria de um novo mundo para se expandir? Impossível!
Em meio a esta polêmica, aparece de um local aparentemente 'não-jazzístico' o homem que mudaria muita coisa. Rumores diziam que o homem era capaz de tocar todos os tipos de jazz: ritmos conhecidos e blues misteriosos; antigos e novos; nostálgicos e vanguardistas. O homem solava seu baixo – solas de pés levantavam e baixavam – o solo tremia e casas de show vinham abaixo.
Mas, antes de solar seu baixo, este novo feiticeiro pensava em todos os encantos dos outros instrumentos – e pensava alto. Escolhia a dedo novos feiticeiros desconhecidos. Os conhecia a fundo e intensificava sua magia com o desconhecido que soava familiar.
O homem conseguia de fato tocar todos os estilos de jazz. Os velhos o respeitavam. Os jovens o admiravam. Depois de ter tocado todos os estilos, ficou claro o que o homem havia feito: o seu estilo havia sido criado dentro do imaginário dos outros, e era um estilo para todos. Depois disso, o homem nunca mais envelheceu. A cada nota emitida por suas mãos, ficava mais jovem. Seus hinos mudos de liberdade repercutiram até que o destino se encarregou de pregar-lhe uma peça...
Ele não mais precisava tocar para ser escutado, e por isso foi perdendo os movimentos. Morreu por falta de música, e suas notas se encarregam ainda de ecoar.
Diz a lenda que seu nome era Charles
Mingus.
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