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É tarde parcialmente nublada com pancadas de chuva e previsão de temporal para mais tarde. A matilha de lobos domesticados arfando, ansiosa para transbordar páginas, entupir ondas de rádio e estufar páginas de TVs e computadores com mais um pouco de publicidade sobre mercadoria cultural. O artista da vanguarda, atrasado. (é claaaro...) Ninguém supreso. Tudo esperado. É artístico se atrasar. É vanguardista não respeitar horários numa sociedade de tempo contabilizado em microsegundos de produção incessante incessante-incessanteincessante.
Após muitos milhares de microssegundos de espera & alguns automóveis a mais para fora da fábrica & algumas crianças a mais mortas na áfrica (como se alguém ligasse. HA. HA. HA.) & alguns Kms a menos de florestas no globinho azul-virando-preto&cinza, aparece! Aparece! E COMO! Alí está ele... o artista de vanguarda! Mas não é qualquer vanguarda não, meirhmão! É da Vanguarda Tediosa Pela Morte Do Prazer (a partir de agora chamada pela sigla VTPMP). E claro que, sendo não de UMA vanguarda, mas DA vanguarda, aparece em grande estilo, trajando vanguardismo da cabeça aos pés. Uma touca de couro de feto abortado adorna sua caixa craniana, escondendo a calvice (dando toque mais jovial, um ar casual pra esse senhor modernoso); A jaqueta de pneu queimado emana odores a metros de distância (um raio de aproximadamente 5m, medido e conferido); calças de latex reciclado de camisinhas fora da validade para levantar o bumbum flácido (adooooro!); por fim, réplicas de botinhas de exército (acho chic & glamouroso).
Os flashes da matilha disparam tudo se ilumina o artista quase esboça sorriso mas consegue manter a postura fingindo odiar tudo isso mas ama muito tudo isso. (é claaaro... é claaaaaaro!) Sem demorar mais que 1 microsegundo, muitos dos lobinhos domesticados já levantam suas mãos, fingem carinhas curiosas, escondem seu enorme ego auto-indulgente de soldados midiáticos, simulam sua verdadeira desconhecida ignorância.
O assessor do artista, Jackson Lamb'bola, aponta um. E a pergunta dispara no ar:
Jornaleiro #02: “Senhor artista, o senhor--”
artista da VTPMP: “Desejo ser chamado de Alteza, hoje. Por favor.”
Jornaleiro #02: “Hã... Hum. Vossa Alteza poderia iniciar nos dando alguns detalhes sobre vossa obra para as massas ou até pra rico pomposo que finge entender de arte mas na verdade é só pose?”
artista da VTPMP: “Essa pergunta enjoativa não poderia vir em melhor hora. Na verdade todos já deveriam saber que a vanguarda obsoleta da pós-modernidade é na verdade uma inveja sobre o que foi feito e isso é um desejo supra-ideológico de superação que leva a novas frustrações. Esse frustracionismo ontologicamente instituido é o gancho cotidiano de morte sobre o ideal de super-homem digerido, refluxado, ulcerando o estômago da filosofia. A contemporaneidade da morte neste quadro de redenção do indivíduo metropolitano é evidente. Quer dizer... Vamo lá: Filhinho morre com bala perdida e zap! Tchau nenêm! Melhor pra ti que não passou fome, não entrou pro tráfico muito menos pra polícia, nem teve que trocar boquete por crack. Enfim. Essa é minha poética sem ética. Pura estética – nada estática – estica até arrebentar e vazar sangue.”
Todos: “Uau!”
O assessor do artista continua a apontar caras empalidecidas pelos flashs e curiosidade dissimulada:
Jornaleiro #05: “De onde veio a idéia de usar sangue real, proveniente de acontecimentos violentos, em suas obras? Como é na prática? Como se dá este 'fazer artístico'?”
artista da VTPMP: “Eu simplesmente sempre fui muito atento à violência urbana. A violência é uma das poucas coisas constantes em uma sociedade guiada pelo volúvel, onde tudo muda constantemente conforme as vontades às quais somos induzidos. Disseram que a colonização, o imperialismo e a globalização destruíram a cultura dos países de 3º mundo, grupo no qual o nosso está inserido, mas eu acho isso um pessimismo danado. É coisa de comunista sonhador. É só você olhar ao redor e consegue ver que uma nova cultura foi criada. A colonização, o imperialismo e a globalização foram ótimos para os artistas realmente interessados a ir além. Eu vi que com a fim da cultura popular – tão cafona e velha – surgiu uma nova cultura: a cultura da violência. Essa é a nossa nova cultura. Eu vi um nicho inexplorado dentro disso. Então eu pensei: “Porra! O sangue, os tiroteios, as execuções, os batalhões de polícia, as mortes, o tráfico, a fome... isso tudo é um puta capital cultural, gentxi!”. O nosso novo capital cultural a ser explorado está no sangue que jorra de nosso cotidiano. Então eu comecei a pensar em formas de transformar isso em arte (e vender bem caro, claro, pra milionários de países desenvolvidos).
A primeira coisa que eu fiz foi comprar um rádio-amador e arrumar um colete a prova de balas. Esse rádio atualmente fica 100% do tempo sintonizado em freqüência policial. Quando sei de uma ocorrência, pego meu colete e vou ao local. Munido de uma esponja, tento encontrar algum azarado que tenha sido baleado, esfaqueado ou atropelado, e sugo com a esponja todo sangue que porventura o coitado tenha derramado e guardo em um pote com anti-coagulante. Pedaços de pele, cabelo, ou matéria orgânica que estiverem disponíveis na cena também são bem-vindos. Então eu pego todo esse material e componho retratos – muitas vezes de amigos meus – com ele, e deixo coagular.”
Um dos soldadinhos-de-chumbo midiáticos levanta a mão com certo receio:
Jornaleiro #03: “Já tentaram analisar essa relação de retratos de amigos seus com o sangue. Qual é a idéia, afinal, que norteia esse conceito?”
artista da VTPMP: “Isso quer dizer que hoje o sangue é meu melhor amigo, ok? Tá legal? É. Isso! Quanto mais sangue eu vejo, e eu pego e eu cheiro, mais arte minha aparece e mais dinheiro na minha conta vai surgir, meu bem.”
O assessor faz sinal de que a última pergunta se aproxima. Todos os predadores da (des)informação fazem grande alvoroço. Grunhem, uivam, se levantam, correm atrás de seus próprios rabos. Dentre todos os exibicionismos, o assessor escolhe o último a fazer sua pergunta:
Jornaleiro #23: “Especula-se sobre um novo tipo de arte que Vossa Alteza esteja preparando. Algo nunca antes tentado. Dizem que irá se chamar 'arte genética'. Pode dar detalhes sobre isso?”
artista da VTPMP: “Ah! Afinal uma
pergunta decente! Depois do domínio desenvolvido no campo da
engenharia genética, eu percebi que esse era outro campo que
poderia ser utilizado artisticamente. Mas com o desenvolvimento de
leis rígidas nos países desenvolvidos – onde eu moro
a maior parte do tempo – sobre o tema, isso ficou só como
idéia por todo esse tempo. Até que recebi apoio de meu
atual mecenas, acionista de uma das maiores empresas de engenharia
genética atualmente – que eu não mencionarei o nome
por questões de segurança.
Mas vamos ao que
interessa... O conceito de escultura genética é
simples: por meio da reprodução controlada de células
tronco, eu vou 'colando' células de variadas funções,
dando à obra o formato que eu desejo. Toda obra possui um
sistema circulatório rudimentar, uma estrutura óssea
básica e está relativamente 'viva'. Mas isso é
apenas para incitar a dúvida de sobre 'o quê está
realmente REALMENTE vivo'. Os corpos são máquinas como
quaisquer outras. Basta colocar o combustível certo que elas
funcionam.
Também acompanha a obra, na base de seu pedestal, um sistema de suporte de vida rudimentar, por onde é possível alimentar a escultura com injeções intravenosas de proteínas e onde seu sangue e fluídos são oxigenados e renovados. Tudo isso, é claro, foi feito aqui em nosso país, por causa daquelas leis horríveis que censuram nossa veia criativa vanguardista lá fora, nos países ditos 'desenvolvidos'. São uns conservadores de merda, isso sim! Essas obras de arte serão máquinas orgânicas que suam, mijam, cagam e excretam fluídos diversos. Com essas características, acho perfeito para colocar na sua sala de estar e exibir para seus visitantes. Qual ricaço que não entende bosta nenhuma não vai querer sua sala fedendo por causa disso?
E é claro! Pra demonstrar o quão comprometido eu estou com esse projeto, as células-tronco utilizadas foram doadas por mim mesmo. Isso quer dizer que ninguém vai conseguir falsificar, pois todas as obras possuem o meu DNA. Não que exista uma obra 'original', pois o original é meu próprio código genético. Logo, isso é a reprodutibilidade técnica, da qual Walter Benjamin falava, levada ao extremo. Mas é o sonho de todo artista que preza por direitos autorais. Uma obra reprodutível que não pode ser falsificada."
A coletiva de imprensa se encerra e todos os lobinhos da matilha midiática pintam seus rostos em sincronia com uma espressão de satisfação. O artista se mantém em sua expressão genérica. Lá fora, as primeiras trovoadas se fazem ouvir. A previsão estava correta, afinal.
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