10 posts tagged “espetáculo”
Jornais. Manchetes. (des)informação e formação inativa. Na mesma madrugada toda a informação é compilada e está pronta para entreter os ávidos pelos acontecimentos:
“GRUPO ATACA COLETIVA DE IMPRENSA DE ARTISTA POLÊMICO / POLÍCIA INICIA INVESTIGAÇÕES SOBRE A MORTE DO ARTISTA / QUEM ASSASSINOU O ARTISTA DE VANGUARDA? / ARTE-ATIVISMO OU ARTE-TERRORISMO? VÍDEO GRAVADO PELO GRUPO SE ESPALHA PELAS REDES DE INFORMAÇÃO / blablablablabla...”
O rosto enorme e enrugado e branco do artista aparece em terminais nas salas, nas praças, nas calçadas, nos dispositivos portáteis de informação, nos ônibus, nos painéis publicitários, nos trens, nos carros, nas boates. Seu olhar cinzento apavorado fixado de forma vacilante no olho-câmera do espectador, como se prestes a realizar uma grande descoberta, ou como se vislumbrado algo que nunca desejaria. Os olhos variando milimetricamente o seu foco ao ritmo de nanossegundos. Num estalo mudo, os olhos perdem qualquer demonstração de vontade. O maxilar começa a esboçar um movimento de abertura para baixo. O sangue voando em slow-motion adquire formas alienígenas e tribais. A caixa craniana segue aumentado sua cirunferência, inchando, como outra existência em gestação na imagem do artista. As primeiras fissuras começam a surgir na pele, desde o alto do crânio, até a base da testa e atrás das têmporas, desenhando lentamenta uma cruz, milímetro a milímetro. Como um botão de rosa a desabrochar, as pontas das pétalas de sangue tomam seu primeiro fôlego, ainda pequenas. O sangue a desabrochar, a cabeça-botão a tornar-se flor violenta. O cálice-ósseo em constante e progressiva abertura dá espaço ao desabrochar de novas e maiores pétalas, mais altas, com vermelhos em gradação do mais denso ao mais aquoso. As feições do artista vão se perdendo em meio à beleza grotesca da flor – quanto mais flor se faz, menos lembra o artista. O cálice se abre completamente, as pétalas sangrentas se curvam, formando parábolas que dão espaço ao que realmente importa. O cerebro do artista de desaloja, se descondensa, se divide e sobe, formando pólipos de pólen nervoso. A poética do artista se manifesta pela polinização de sua massa cinzenta. Já não há mais artista, e o que se pode ver é a bela flor de sua morte.
Apresentador #02: “E vocês acabaram de assistir na íntegra ao vídeo gravado e deixado pelos arte-terroristas no local do atentado contra o artista da Vanguarda Tediosa Pela Morte do Prazer. Teve sua execução gravada ontem, durante coletiva de imprensa que era considerada um grande marco em sua carreira. Seus executores, expoentes da anti-anti-arte-sabotagem, espalharam pelo local centenas de panfletos que resenhavam a ação contra o artista. Nós trazemos o conteúdo do documento a vocês em primeira mão e sem cortes:
O grupo de arte-terrorismo e anti-anti-arte-sabotagem esclarece e explica a ação acerca do famigerado artista da VTPMP.
Acreditamos que existe potencial dentro da poética do já mencionado artista, uma certa sede de libertação violenta dentro das vidas metropolitanas em seus anexos de frustrações. Porém, tal sede de libertação privada nada é quando se torna exclusividade. A sede de um exclui a sede de outros. Logo, nossa ação é uma ação contra E a favor do infeliz que se realiza pela morte. A favor – já que usa e propaga a poética do artista da VTPMP, bem como suas práticas e técnicas e algumas de suas intenções, conferindo fama a seu nome. Contra – pois reconhece que para multiplicar o potencial de tal poética é necessária a morte do dito-cujo, além de plagiar descaradamente suas intenções artísticas e tirar a sua poética de seu controle privado e autoral.
O símbolo da flor desabrochando carrega muitas mensagens, e nos agradou desde o início. Com isso, pretendemos incitar a um questionamento sobre valores pregados aos conceitos de morte e violência. Nós matamos um artista para realizar uma peça de arte. E mataríamos muitos mais se assim fosse preciso. O artista se mata pra viver fora de si. Portanto, o fim do uso de nós nas artes nos daria mais vida, mais fôlego, mais espaço para as manifestações livres e vivas. Se o artista não morrer como imagem, certamente morrerá como corpo, antes mesmo até de seu falecimento físico – sua arte o mata antes que ele possa pensar nisso.
Sendo assim, as únicas formas de arte que hoje existem são a arte de auto-mutilação, a arte de inter-mutilação e a arte daquilo que é morto. A arte de auto-mutilação é aquela que usa como matéria prima as frustrações do artista, e suas tempestades mentais – é uma externalização de suas mágoas com a intenção inconsciente de que alguém testemunhe sua dor e desenvolva alguma identificação com tal dor. Já a arte de inter-mutilação utiliza-se da forma como o artista sente as frustrações dos outros como matéria-prima – é uma internalização das mágoas que faz germinar uma compaixão crítica pessimista, e que dessa forma se coloca como uma troca de mutilações entre o artista seu ambiente social de exploração. A arte daquilo que é morto é a arte dos materiais, que se expressa com formas inconscientes de idealismo – é uma idealização pessoal implantada, de matérias estáticas e tentativas intermináveis de causar algum movimento com limites bem estabelecidos.
Não desejamos propagar ou perpetuar tal situação, e por isso buscamos algo que tivesse o potencial da ruptura. O monopólio da violência é a única barreira que resta à nossa frente. O monopólio da violência nos coage à prática de violências de uns contra os outros. Nos compele à realização de atos contra bodes expiatórios. Nos isola, nos fragmenta e separa. O monopólio da violência espalha a violência, a tira a solidez dos atos e descondensa a violência, esconde o alvo e acaba com a pontaria. Vimos a democratização da violência no artista da VTPMP, mas uma democratização tola – uma democratização como produto. Acreditamos que a democratização verdadeira da violência é possível e necessária. A democratização da violência a irá direcionar contra o que nos violenta dia após dia e as violências serão violentadas.
Para que tal isso aconteça é preciso que a arte esteja livre para fluir, e a única peça que impede esse fluxo livre é o artista. O artista é apenas o começo da arte, e não seu fim. Quando ele se torna fim, a arte não amadurece, e as floradas murcham antes de desabrochar. O artista deve morrer. A morte do artista como desabrochar da arte. O desabrochar da arte como polinização das idéias.
Para vocês que estão nos acompanhando agora, este foi o manifesto do grupo autor do ataque contra o artista da VTPMP. Continue conosco enquando vamos a nossos comerciais.”
Publicidade: “Breve, em versão digital e com extras e comentários, o vídeo original em vários ângulos do atentado contra o artista da VTPMP. Lançamento exclusivo! Não perca--”
*clic*
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Chuva grossa temperatura em 18°C & previsão de temporal para todo o resto da madrugada. Alguns serviçais da APSP (Agência Privada de Segurança Pública) montam guarda em frente à enorme silhueta escurecida do hotel, suas linhas arquitetônicas em verticalização vertiginosa, progresso sempre acima de tudo, um cinza que se funde com o do céu.
Traiçoeiras sombras da metrópole tomam variadas formas, se aglomeram – uma formação pseudomilitar do caos em variadas cores, tudo em todos, em coreografias não ensaiadas agressivas aos olhos, todos vestindo máscaras anti-gás: Prostitutas punks seminuas, moicanos, não-depiladas com pelos tingidos e argolas pelos corpos; Transsexuais cibernéticas com aparatos orgásmicos eletrônicos, vestimentas fetichistas, corpos quase sintéticos; DJs vestindo seus sistemas-de-som, carregando samplers portáteis, sons pornográficos, dadaísmo musical sexual subliminar e som de maquinaria pesada.
Antes que os agentes privados possam esboçar qualquer reação, drogas sintéticas em aerosol – a mais recente inovação no campo dos entorpecentes – carregam o ar de sensações: ecstasy em spray, anfetaminas em inaladores, substâncias lisérgicas em grandes cilindros pressurizados. A imersão na supra-realidade entorpecida permite a aproximação do aglomerado, sob denso som industrial – motores rugindo e regendo o som de vozes orgiásticas e digitalizadas em ritmos pesados repetitivos penetrantes. Os ex-agentes, agora invadidos e penetrados por um enorme leque de desejos desconhecidos, são subjugados pelos ritmos e sensações: peles umidecidas criam seu próprio relevo em uma nova vegetação de pelos eriçados, membros eretos e contrações involuntários da uma grande variedade de músculos. Mãos querem tocar, sentir texturas, testar tecidos. Algumas prostitutas lhes removem das fardas e lhes dão um banho de lubrificante. Corpos se esfregam... os agentes deslizam suas mãos por variadas cores, pele suave de seios com mamilos cobertos, ventres com espartilhos nus ao centro, pescoços realçados por luz negra, dedos envolvidos pelo calor de orifícios úmidos. Mãos tatuadas delicadas vestindo socos-ingleses cortam o ar e atingem em cheio o rosto e o corpo de um dos agentes, que vai ao chão. Chute de calcanhar com salto-alto no ventre derruba o outro. As musas punks usam os agentes como montaria. Os açoitam e domam enquanto uma lâmina vibratória é ligada, trilhando os pescoços dos porcos quase que em câmera-lenta e fazendo seu sangue cancerígeno escorrer e borrar em contato com a água da chuva.
Os seres se movem em sua graça agressiva de animais urbanos, infectando a esterilidade dos espaços-feitos-mercadoria, pichando e grafitando paredes, chão, teto e mobiliário com slogans insurgentes, atingindo finalmente o salão de festas, onde há poucos instantes terminava a coletiva de imprensa com o artista da VTPMP: microfones em punho, tripés armados, transmissões viajando pela fibra ótica – ao vivo e em cores, tudo no mesmo lugar mas pronto pra ser empacotado e ir.
O artista da VTPMP nota a presença daquilo que seus olhos consideram uma concorrência inaceitável, uma ameaça a seu domínio midiático, um ruído em todos os sentidos e meios de expressão. A presença da pequena turba é um distúrbio semiótico inevitável:
artista da VTPMP: “Turminhas de rebeldes pseudo-vanguardistas nostálgicos por uma realidade inacessível a suas mentes sempre aparecem em minhas festas. É claro que EU me encarrego de enxotá-los com muita classe, lhes preparando uma bandeja com tudo o que tem do bom e do melhor em matéria de comes e bebes. Esses pedintes sempre aceitam quietinhos. A abundância de minha arte é irrecusável, meus caros.”
Jornaleiros: “HaHhahAhA!”
Mas a presença destoante no salão emudece as gargalhadas rapidamente. Uma das bem-equipadas transsexuais toma frente, uma de suas correntes serpenteando no ar, atinge em cheio a façe direita do artista da VTPMP, que ganha um belo e sangrento sorriso vermelho de extensão até quase sua orelha direita.
Transsexual acorrentadora: “Estamos aqui pra pegar TUDO. Mas não vamos embora satisfeitos com apenas isso. Não somos artistas e nem o pretendemos. Muito pelo contrário: cada um de nós é célula de um corpo artístico muito maior, não-individual, sem identidade egocêntrica. O artista da VTPMP não passa de uma semente de onde deve desabrochar algo maior. Nosso prazer começa em seu sangue para não mais terminar.”
A música que toca em altos brados torna a apresentação da anfitriã quase ininteligível. Logo todos envolvem as frágeis células da imprensa como anticorpos da metrópole, misturam a todos, a massa de corpos coesa, orgânica, ávida, faminta. Um estupro dominador coletivo ao-vivo simbolizando a infecção inesperada em um sistema de assepsia. A bactéria hospitalar social. Uma fagocitose em massa dos membros da imprensa, envolvidos por corpos, ácido úrico, digeridos lentamente pelo organismo anti-social, acorrentados, amarrados. Berram seus pavores parecendo quase prazerosos. As prostitutas punks riem como hienas histéricas inebriando a todos com sua sensualidade suja. O indesejável desejado – trabalhadores midiáticos senvindo de atores em frente a suas ferramentas, penetrados por membros plásticos lubrificados com cuspe, vestidos por garotas que estampam seus rostos com sorrisos vingativos e cruéis. Apenas alguns estupros, se comparados a todos os outros que eles mesmos perpetraram. A mídia – sistema-de-estupro teledirigido – provando um pouco de suas próprias práticas pela retro-via.
Os índices de audiência vão às nuvens-de-chumbo. Os editores choram de alegria o sangue derramado via-anal pelos bravos soldadinhos inocentes da mídia (tudo pelo maior furo de reportagem de todos os tempos de ontem, que será superado pelo de amanhã). Uma das prostitutas destrói uma das câmeras disposta em um tripé, pega o tripé e o reutiliza em sua própria câmera de captação em alta velocidade. Posiciona rapidamente o equipamento no centro da sala enquanto o artista é acorrentado a uma cadeira diretamente no centro do campo de visão da lente. Parece bem menos real no display. Ela ri de seu aspecto ridículo e coloca a câmera para gravar. Sua colega tira da meia uma pequena esfera cinzenta de aproximadamente 23 mm, adornada por muitos espetos – algo parecido com um ouriço high-tech. Puxa com violência o maxilar do artista da VTPMP, abrindo sua boca, e espetando com força a esfera em seu palato – o artista emite um som abafado – o rosto da garota é adornado com um jovial sorriso de satisfação enquanto envolve o rosto do artista da VTPMP com um grosso cinto de couro e o trava, movendo-se logo depois para longe.
Enquanto se confundem linhas de dunas orgânicas dispostas em tons do creme ao café e os trabalhadores da mídia têm a experiência de suas vidas, um estalo alto, agudo e dominante é emitido do artista da VTPMP. Arcos vermelhos a delinear os espaços vazios, para o alto, para os lados, todas as direções. Sua última obra de arte feita com sangue proveniente de atos violentos – abstrata, temporária, adornando alvas paredes de um salão de eventos.
A câmera de captação em alta velocidade anuncia o fim da memória com um bipe. O salão se esvazia e as sombras se desfazem. A ação não durou mais que alguns milhares de microssegundos. Quando os reforços da APSP chegam, encontram nada além de uma câmera em um tripé e panfletos, cobrindo completamente o chão & os corpos exaustos, contendo release sobre a intervenção. (O magnata da mídia queria aproveitar cada momento das câmeras ligadas: “se vocês chegarem antes do desfecho eu faço questão de cortar as cabeças de cada um de vocês!!!”)
A câmera de captação em alta velocidade anuncia o fim da memória com um bipe. Comerciais. A audiência foi alta & amanhã só vão lembrar quando aparecer nos jornais.
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É tarde parcialmente nublada com pancadas de chuva e previsão de temporal para mais tarde. A matilha de lobos domesticados arfando, ansiosa para transbordar páginas, entupir ondas de rádio e estufar páginas de TVs e computadores com mais um pouco de publicidade sobre mercadoria cultural. O artista da vanguarda, atrasado. (é claaaro...) Ninguém supreso. Tudo esperado. É artístico se atrasar. É vanguardista não respeitar horários numa sociedade de tempo contabilizado em microsegundos de produção incessante incessante-incessanteincessante.
Após muitos milhares de microssegundos de espera & alguns automóveis a mais para fora da fábrica & algumas crianças a mais mortas na áfrica (como se alguém ligasse. HA. HA. HA.) & alguns Kms a menos de florestas no globinho azul-virando-preto&cinza, aparece! Aparece! E COMO! Alí está ele... o artista de vanguarda! Mas não é qualquer vanguarda não, meirhmão! É da Vanguarda Tediosa Pela Morte Do Prazer (a partir de agora chamada pela sigla VTPMP). E claro que, sendo não de UMA vanguarda, mas DA vanguarda, aparece em grande estilo, trajando vanguardismo da cabeça aos pés. Uma touca de couro de feto abortado adorna sua caixa craniana, escondendo a calvice (dando toque mais jovial, um ar casual pra esse senhor modernoso); A jaqueta de pneu queimado emana odores a metros de distância (um raio de aproximadamente 5m, medido e conferido); calças de latex reciclado de camisinhas fora da validade para levantar o bumbum flácido (adooooro!); por fim, réplicas de botinhas de exército (acho chic & glamouroso).
Os flashes da matilha disparam tudo se ilumina o artista quase esboça sorriso mas consegue manter a postura fingindo odiar tudo isso mas ama muito tudo isso. (é claaaro... é claaaaaaro!) Sem demorar mais que 1 microsegundo, muitos dos lobinhos domesticados já levantam suas mãos, fingem carinhas curiosas, escondem seu enorme ego auto-indulgente de soldados midiáticos, simulam sua verdadeira desconhecida ignorância.
O assessor do artista, Jackson Lamb'bola, aponta um. E a pergunta dispara no ar:
Jornaleiro #02: “Senhor artista, o senhor--”
artista da VTPMP: “Desejo ser chamado de Alteza, hoje. Por favor.”
Jornaleiro #02: “Hã... Hum. Vossa Alteza poderia iniciar nos dando alguns detalhes sobre vossa obra para as massas ou até pra rico pomposo que finge entender de arte mas na verdade é só pose?”
artista da VTPMP: “Essa pergunta enjoativa não poderia vir em melhor hora. Na verdade todos já deveriam saber que a vanguarda obsoleta da pós-modernidade é na verdade uma inveja sobre o que foi feito e isso é um desejo supra-ideológico de superação que leva a novas frustrações. Esse frustracionismo ontologicamente instituido é o gancho cotidiano de morte sobre o ideal de super-homem digerido, refluxado, ulcerando o estômago da filosofia. A contemporaneidade da morte neste quadro de redenção do indivíduo metropolitano é evidente. Quer dizer... Vamo lá: Filhinho morre com bala perdida e zap! Tchau nenêm! Melhor pra ti que não passou fome, não entrou pro tráfico muito menos pra polícia, nem teve que trocar boquete por crack. Enfim. Essa é minha poética sem ética. Pura estética – nada estática – estica até arrebentar e vazar sangue.”
Todos: “Uau!”
O assessor do artista continua a apontar caras empalidecidas pelos flashs e curiosidade dissimulada:
Jornaleiro #05: “De onde veio a idéia de usar sangue real, proveniente de acontecimentos violentos, em suas obras? Como é na prática? Como se dá este 'fazer artístico'?”
artista da VTPMP: “Eu simplesmente sempre fui muito atento à violência urbana. A violência é uma das poucas coisas constantes em uma sociedade guiada pelo volúvel, onde tudo muda constantemente conforme as vontades às quais somos induzidos. Disseram que a colonização, o imperialismo e a globalização destruíram a cultura dos países de 3º mundo, grupo no qual o nosso está inserido, mas eu acho isso um pessimismo danado. É coisa de comunista sonhador. É só você olhar ao redor e consegue ver que uma nova cultura foi criada. A colonização, o imperialismo e a globalização foram ótimos para os artistas realmente interessados a ir além. Eu vi que com a fim da cultura popular – tão cafona e velha – surgiu uma nova cultura: a cultura da violência. Essa é a nossa nova cultura. Eu vi um nicho inexplorado dentro disso. Então eu pensei: “Porra! O sangue, os tiroteios, as execuções, os batalhões de polícia, as mortes, o tráfico, a fome... isso tudo é um puta capital cultural, gentxi!”. O nosso novo capital cultural a ser explorado está no sangue que jorra de nosso cotidiano. Então eu comecei a pensar em formas de transformar isso em arte (e vender bem caro, claro, pra milionários de países desenvolvidos).
A primeira coisa que eu fiz foi comprar um rádio-amador e arrumar um colete a prova de balas. Esse rádio atualmente fica 100% do tempo sintonizado em freqüência policial. Quando sei de uma ocorrência, pego meu colete e vou ao local. Munido de uma esponja, tento encontrar algum azarado que tenha sido baleado, esfaqueado ou atropelado, e sugo com a esponja todo sangue que porventura o coitado tenha derramado e guardo em um pote com anti-coagulante. Pedaços de pele, cabelo, ou matéria orgânica que estiverem disponíveis na cena também são bem-vindos. Então eu pego todo esse material e componho retratos – muitas vezes de amigos meus – com ele, e deixo coagular.”
Um dos soldadinhos-de-chumbo midiáticos levanta a mão com certo receio:
Jornaleiro #03: “Já tentaram analisar essa relação de retratos de amigos seus com o sangue. Qual é a idéia, afinal, que norteia esse conceito?”
artista da VTPMP: “Isso quer dizer que hoje o sangue é meu melhor amigo, ok? Tá legal? É. Isso! Quanto mais sangue eu vejo, e eu pego e eu cheiro, mais arte minha aparece e mais dinheiro na minha conta vai surgir, meu bem.”
O assessor faz sinal de que a última pergunta se aproxima. Todos os predadores da (des)informação fazem grande alvoroço. Grunhem, uivam, se levantam, correm atrás de seus próprios rabos. Dentre todos os exibicionismos, o assessor escolhe o último a fazer sua pergunta:
Jornaleiro #23: “Especula-se sobre um novo tipo de arte que Vossa Alteza esteja preparando. Algo nunca antes tentado. Dizem que irá se chamar 'arte genética'. Pode dar detalhes sobre isso?”
artista da VTPMP: “Ah! Afinal uma
pergunta decente! Depois do domínio desenvolvido no campo da
engenharia genética, eu percebi que esse era outro campo que
poderia ser utilizado artisticamente. Mas com o desenvolvimento de
leis rígidas nos países desenvolvidos – onde eu moro
a maior parte do tempo – sobre o tema, isso ficou só como
idéia por todo esse tempo. Até que recebi apoio de meu
atual mecenas, acionista de uma das maiores empresas de engenharia
genética atualmente – que eu não mencionarei o nome
por questões de segurança.
Mas vamos ao que
interessa... O conceito de escultura genética é
simples: por meio da reprodução controlada de células
tronco, eu vou 'colando' células de variadas funções,
dando à obra o formato que eu desejo. Toda obra possui um
sistema circulatório rudimentar, uma estrutura óssea
básica e está relativamente 'viva'. Mas isso é
apenas para incitar a dúvida de sobre 'o quê está
realmente REALMENTE vivo'. Os corpos são máquinas como
quaisquer outras. Basta colocar o combustível certo que elas
funcionam.
Também acompanha a obra, na base de seu pedestal, um sistema de suporte de vida rudimentar, por onde é possível alimentar a escultura com injeções intravenosas de proteínas e onde seu sangue e fluídos são oxigenados e renovados. Tudo isso, é claro, foi feito aqui em nosso país, por causa daquelas leis horríveis que censuram nossa veia criativa vanguardista lá fora, nos países ditos 'desenvolvidos'. São uns conservadores de merda, isso sim! Essas obras de arte serão máquinas orgânicas que suam, mijam, cagam e excretam fluídos diversos. Com essas características, acho perfeito para colocar na sua sala de estar e exibir para seus visitantes. Qual ricaço que não entende bosta nenhuma não vai querer sua sala fedendo por causa disso?
E é claro! Pra demonstrar o quão comprometido eu estou com esse projeto, as células-tronco utilizadas foram doadas por mim mesmo. Isso quer dizer que ninguém vai conseguir falsificar, pois todas as obras possuem o meu DNA. Não que exista uma obra 'original', pois o original é meu próprio código genético. Logo, isso é a reprodutibilidade técnica, da qual Walter Benjamin falava, levada ao extremo. Mas é o sonho de todo artista que preza por direitos autorais. Uma obra reprodutível que não pode ser falsificada."
A coletiva de imprensa se encerra e todos os lobinhos da matilha midiática pintam seus rostos em sincronia com uma espressão de satisfação. O artista se mantém em sua expressão genérica. Lá fora, as primeiras trovoadas se fazem ouvir. A previsão estava correta, afinal.
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Amor babaca
Paixão na faca
"Te adoro" na humilhação
imploro por redenção
"Te amo"
coração de pano
cortou meu nome
bordou de fulano
faça a farsa–
–faz que é fácil!
passa a faca–
–não foi façanha...
Acredite:
não boto crédito:
acabou o amor incrível
Ligue amanhã & ligue a manhã–
–até o amanhecer foi tornado artificial.
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“Era uma vez uma garotinha que teve a massa cinzenta frita pela fé de seus pais” – é assim que eu poderia começar a escrever a história que segue, mas as ramificações são tantas, que ela logo deixa de ser apenas uma história sobre apenas uma garotinha. As peculiaridades se sobrepõem, criando um drama de proporções literalmente 'divinas'. Nada mais lindo: uma garotinha falando de deus. Nada mais prático: uma garotinha pedindo dinheiro, em nome de deus. Nada mais infalível: uma garotinha propagando moralismos aos berros – em nome de deus, novamente.
Ana Carolina prega e berra,
assimilando todo o show gestual, todo o exagero populista do
neocristianismo. Esta 'dádiva de deus' mais soa como
catástrofe: quando uma criança prega fanaticamente,
quando uma criança se torna instrumento de causas duvidosas, e
principalmente quando uma criança aprende a extorquir dinheiro
por meio da fé, mais uma fração de esperança
se perde. A inundação das patifarias sobre a vida sobe
mais um centímetro. Os patéticos calhordas de terno
atrás da garota dão gargalhadas de satisfação,
acham graça, ficam admirados.
Podemos afirmar de forma resoluta que existe a liberdade de culto, e é saudável que os indivíduos mantenham sua fé, mas os caso de Ana Carolina não se enquadra tanto nisso. O neocristianismo é uma mistura de máfia de extorsão com busca por influência política, e que tem obtido vitórias significativas neste sentido. Uma coação sutil que pega dos que já tem pouco, aqueles desesperados por alguma esperança. O neocristianismo vende esperança televisionada, mediada, dissimulada. Há anos a verdade está bem debaixo de nossos narizes, desde quando o bispo Edir Macedo apareceu em reportagem do Jornal Nacional ensinando a seus comparsas, como tirar uma grana preta fundando uma igreja.
Diferente do que se esperava, o templo não desabou. Deus não virou uma carcaça para alimentar os abutres da ciência burra. Os dogmas não se tornaram meros alicerces do sustento ao mercado: o mercado agora vende misticismo! Muito provavelmente a sociedade do espetáculo não existe da forma como os specto-situacionistas acreditavam. O espetáculo provavelmente não passa de uma capa protetora vestida pelo império em tempos de recesso. Antes, o espetáculo era a fatal arma capaz de danificar o próprio império, ofuscando o brilho das mistificações fundamentais. Agora que a religião foi espetaculizada e os exorcismos tem alcance global, o espetáculo se consolidou como arma estratégica. As complexidades do império não podem ser subestimadas – é preciso ir até as últimas conseqüências nas análises e definições, chegando às raízes do problema. Burguesia, cristianismo (em suas várias formas autoritárias), espetáculo, polícia e estado (dentre outras denominações) não passam de ferramentas, manipuladas cuidadosamente com apenas um objetivo: controle. Cada uma das ferramentas serve para controlar uma situação, e o jogador hábil joga sempre sem deixar rastros – não se expõe, por saber que a invisibilidade é a mais efetiva das armas.
De forma quase aleatória, surgem os exemplos bizarros do neocristianismo. Dave Mustaine, do Megadeth, há pouco tempo atrás começou a atuar junto a seitas neocristãs. Disso resultou uma mudança do som do Megadeth para um White Metal bizarro, repleto de sofismas, materializado na forma do disco entitulado 'United Abominations'. A temática do disco recorre a argumentações religiosas nas letras para alegar que as Nações Unidas são uma espécie de 'quartel-general da besta', e criticam suas resoluções contra a invasão do Iraque.
Mas esse nem é um exemplo tão bom, afinal o cérebro de Mustaine foi derretido por anos e anos de uma vida junkie, o que certamente contribuiu para seu visível retardamento mental (Em entrevista sobre o novo disco, os argumentos de Mustaine são patéticos, nada de assemelhando com fruto de uma 'inspiração divina'. Parecem vindos de um Beavis ou um Butthead um pouco piorados, já que Beavis & Butthead ao menos apreciam formas mais 'profanas' de metal.)
Foda mesmo é a Igreja de Hillsong. Surgida na Austrália em 1983, a Hillsong é atualmente a maior 'igreja' da Austrália, possuindo também sucursais e canais de televisão pelo mundo todo. São uma espécie de igreja 'da hora', descolada, com a sua juventude – a Hillsong United – que faz turnês com músicos ao redor do mundo e ganha novos adeptos por meio do espetáculo. Também possuem a faculdade Hillsong Internacional de Liderança, que prepara as novas gerações de seus líderes espirituais (obvio, já que a preparação dos jovens em uma universidade laica provavelmente é um risco que não se pode correr).
O poder se digitalizou. Portanto, todas as suas armas, inclusive o cristianismo, fizeram o mesmo. O neocristianismo surgiu neste momento. Atualmente os ataques mais eficientes são ataques midiáticos. Então façamos que os nossos ataques sirvam para construir o imediatismo.
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O galpão repleto de ofertas. Uma noite de existências descontextualizadas. No mercado de corpos, publicidade é tudo e tudo é publicidade. Garotas vestidas para atrairem olhares dos mais puritanos encenam danças auto-suficientes. Pálidos garotos caucasianos, disfarçados em negritude comprada, exibem seu gingado simulado. A cultura de consumo iconificada e reduzida a uma cafetinagem simbólica. A mediação da mediocridade estratificante que são as vestes. O escândalo da pobreza consumível.Vinte mangos pra entrar neste planeta de grotesquidão gratuita.
Músicos de alegria abatida se posicionam no palco. Serviçais do entretenimento etnofetichista. A coisificação dos padrões etnicos se inverte. A Cantora não é mulata. Pela inversão padronizante, a Mulata é cantora.
Uma mulata-cantora-mulata encena sorrisos libidinosos, veste o figurino, rege momentaneamente o espetáculo da miscigenação virtual – a miscigenação mediada: a miscigenação que nunca chega de fato a ocorrer. Um negro gordo tenta se mover com graça, cantar com manha e sorrir com malandragem, furtivamente tentando simular não estar entupido de coca & álcool. Sax & Trumpete tocam com olhares transbordando em displicência. Nem todo o ar do mundo injetaria vitalidade em seus sopros cirúrgicos.
Um lampejo de muitos 'Brasis' em uma sala revestida por espelhos, onde nenhuma das faces é a real. Mistificações infindáveis, descartáveis como preservativos, vendidas ao preço da banana-lização, gozadas e jogadas fora de acordo com os milhares de acasos condicionados – a coletivização da babaquice. Cada gesto como uma mediação sutil de relações ameaçadas pelo pavor de suas realizações plenas. A erotização do patético é a patetização do erótico.
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Observação: compartilhar arquivos digitais não é considerado crime pela lei vigente no brasil. É considerado uma infração manter os arquivos em seu disco por mais de 48 horas. Logo, o mantenedor desta página não possui responsabilidade alguma por uso indevido da ferramenta de compartilhamento. PENSE ANTES DE DENUNCIAR, pois você pode prejudicar a pessoa errada.
Um futuro degradante nos aguarda. Com seu brilho sujo e alucinantes fedores assépticos, Transmetropolitan é obrigatória para aqueles que prezam por uma ficção científica que incomoda, inundando nosso imaginário de sujeiras adoráveis.
Transmet é o diário de bordo de Spider Jerusalem, jornalista cyberpunk dotado de texto afiado, sarcasmo peçonhento e para completar, o estado de espírito de um Nietzsche sob efeito de estimulantes. Tal combinação faz de Spider o jornalista ideal para um futuro onde até mesmo os eletromésticos e outros aparatos providos de inteligência artificial fazem uso de substâncias alucinógenas.
Cada detalhe de Transmet torna mais agradável esta bizarra apreciação escatológica. Desde o humor negro das narrativas de Spider, passando pelos traços arquitetônicos de megacidades decadentes, tomadas por publicidade holográfica, chegando ao animal de estimação de Spider – uma bizarra gatinha fumante com duas faces e três olhos – Transmet é uma HQ que não deixa passar nenhuma chance de transtornar nossas concepções de futuro organizado.
A vida de Spider, e o exercício do jornalismo neste universo bizarro, se tornam um exagero ridicularizante sobre as condições contemporâneas da sociedade onde vivemos, em todos os aspectos, e uma sátira mais do que necessária sobre o jornalismo.
Transmet é jornalismo gonzo moldado em quadrinhos e jogado na nossa cara, aos berros: JORNALISTA! DEIXE DE SER BUNDÃO!
Warren Ellis – Transmet #01 a #08 (download)
CDisplay – programa para leitura de quadrinhos no pc
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Enquanto a polícia se encarrega de deixar o Rio de Janeiro limpinho para os jogos que vêm aí, outro tipo de violência ganhou as manchetes. O divertido espancamento da trabalhadora Sirlei.
Não poderia haver show maior, e neste palco os comediantes não perdem a compostura. Os comediantes dos meios de comunicação em sua maioria tratam o caso praticamente como coisa de ‘jovens brincalhões’. Os comediantes da polícia querem (como sempre) ganhar destaque. É a vida cotidiana ganhando sempre ares de seriado policial. Os comediantes da velhice conservadora – pais dos garotos – culpam o assunto do momento pelos ‘deslizes’ de seus filhotes.
Sirlei foi espancada por cinco perfumados jovens comediantes, por motivos ainda desconhecidos – provavelmente um novo tipo de show surrealista que está na moda. Os jovens, como que por milagre, encontram as desculpas ideais... Uma memorável performance de improvisation. A peça mais bela desta galeria de grotesquidão é a frase “Nós pensamos que fosse uma prostituta”. Com certeza sensibilidade artística ao momento é o que não lhes falta. Que frase magistral, encaixada no ápice do momento! O clímax do show! Todas as sensações de satisfação da burguesia exalando aromas de doce decadência.
Tais jovens, eu afirmo, são claramente uma espécie de vanguarda. Incompreendidos... Muito à frente de seu tempo. Claramente perceberam a nulidade de seus atos e sua existência, e por isso decidiram resolutamente: não há nada melhor para a juventude rica fazer do que espancar possíveis prostitutas e saquear-lhes seus tesouros noturnos.
Chegam até nos despertar algumas dúvidas. Afinal, de onde tiram tanta inspiração cômica? Mas, como sempre, no timing adequado as tramas se desvendam. Os papais claramente ensinaram tudo aos filhotes. O pai de um dos garotos, Sr. Ludovico, declara: “Foi uma coisa feia que eles fizeram? Foi. Não justifica o que fizeram. Mas prender, botar preso, juntar eles com outros bandidos... Essas pessoas que têm estudo, que têm caráter, junto com uns caras desses? Existem crimes piores”.
Sr. Ludovico, claramente um mestre da atuação dramática, chega quase a convencer. Tanto que faz um número performático onde interpreta um pai que, de súbito, adquire consciência crítica sobre o sistema prisional (que, é claro, é a alma de nosso sistema), dizendo: “Eles não são bandidos. Tem que criar outras instâncias para puni-los. Queria dizer à sociedade que nós, pais, não temos culpa nisso. Eles cometeram erro? Cometeram. Mas não vai ser justo manter crianças que estão na faculdade, estão estudando, trabalham, presos. É desnecessário, vai marginalizar lá dentro”.
Realmente é de se espantar... Tanto tempo dizendo que são necessárias mais prisões, punições mais duras, redução da maioridade penal... E quando os filhotes perfumados da aristocracia comediante são pegos em seus jogos, a própria voz da burguesia – o homem branco bem sucedido –, que tanto exige políticas mais duras, diz: “O sistema prisional marginaliza”. BRAVO!
Mas fecham-se as cortinas... Amanhã ninguém mais se lembra.
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Quando o descaso se diz caso e a verdade cai em desuso, a mentira se diz uso dos fatos que descasam. O teatro se diz casa da verdade.
A mentira é propagada pelas vozes da verdade.
A propaganda é mentida pelas vozes do teatro.
O espetáculo da especulação ensina a especular e calar.
O jogo cínico onde se experimenta sem provar.
Experimente duvidar.
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“Igreja cria 10 mandamentos para os motoristas católicos” - Folha de S. Paulo
Agora ultrapassagem perigosa é pecado, de acordo com o tal papa. Em mais uma tradicional manobra espetacular de 'modernização' da fé, a tal Igreja reproduz apenas sua tradição: o pecado. Não poderia haver forma mais ideal de 'modernização' católica, onde se moderniza apenas a forma de condenar. Isso se enquadra na tendência espetacular de mudança sem alterações que o tal Ratzinger tem em mente quando se trata da 'fé cristã' (entre aspas mesmo, pois de fato “o cristianismo morreu com Cristo”). Onde se encaixa então a tal Igreja, dentro da sociedade meta-espetacular?
Como no palco multifacetado do
espetáculo pode-se apenas especular, façam suas apostas
em alguma das alternativas:
Em uma sociedade que tem a ciência burra como religião, e tendo o espetáculo como seu altar, resta a tais religiosidades ultrapassadas apenas lamentar, vivendo de uma nostalgia chorosa dos teimosos que nunca se adaptarão de fato ao espetáculo. A ciência burra nada mais é do que a técnica desprovida de curiosidade insurgente contra as certezas estabelecidas. É, dessa forma, a satisfação paternal da reprodução daquilo que já foi descoberto. E cada aperfeiçoamento daquilo que já existe é visto como O avanço mais importante dó século (mesmo que estejamos apenas começando este), nunca gerando qualquer alteração real do cotidiano dos indivíduos. Os patéticos louvarão as novas formas de aparelhos velhos.
Ou então a religião é uma peça que compõe a cenografia espetacular. Se contentando com seu papel subalterno de suporte à divindade maior formada pelo emaranhado tecnológico, serve de freio ao frenesi de viver a compra do espetáculo irrealizável. Reconhecem a glória da nova idolatria, e o monoteísmo cínico nada mais é do que um fragmento do politeísmo teo-tecnológico. Bill Gates, Steve Jobs, etc. - cada um destes é um papa/monarca/imperador de seus microavatares da tecnodivindade. E cada ipod, cada nokia, cada motorola é uma hóstia na religião do não-vivo. Tente derrotar isso com cruzes e eucaristias. réréré!
Como outra alternativa, se encontra a atraente idéia de que o Império (“Roma”, segundo um tal de Hakim Bey) nunca terminou. Uma visão um tanto mais conspiratória, de fato, mas o que seria o espetáculo então? Teria ele surgido muito antes das mídias 'instantâneas'? A hipótese que importa nesse caso é: seria o nome “cristianismo” uma maneira de dizer “ensaio para criação da sociedade do espetáculo” de forma mais resumida? Caso seja isso, então Roma deveria mesmo ter sido queimada, pois tal feito nada mais é do que uma vitória do Império, maquiada em cores de decadência. Só se queimou Roma quando na certeza de que o Império seria possibilitado em erguer quartéis generais dentro de cada plebeu. A punição instantânea da culpa foi a maior invenção do Império (“Roma”) e por isso ele está vivo até hoje, dentro de cada um de nós, mesmo que a culpa nem sempre surja sob a forma de pecado.
Mas chegando ao cerne da questão, tais alternativas se tornariam meramente ilustrativas. O fato é que nenhuma punição abstraída na forma espiritual fará frente à fantasia de realização espetacular. Diariamente, e desde a mais tenra infância, os carros e motos são apresentados aos seus fiéis seguidores como brinquedos divinos de alta-velocidade. A publicidade de veículos, óleos, combustíveis e peças é estetizada como brincadeira divertida em alta velocidade ou mistificação de realização nirvanística. E o único pecado é não ser o motorista ideal, infalível e até mesmo iluminado por uma sorte divina. A punição para tal pecado é a morte. Para os deuses do espetáculo não existe confissão.
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